Elas beijam de língua...
(19.02.03)
 
 

Eu não sou feminista. Alias, acho todo tipo de segmentação burra e prefiro muito mais a expressão “feminina”. E nesse mundo machista e moralista, quando vejo algum tipo de manifestação feminina, volto a ter fé que as coisas possam mesmo mudar. 

Por exemplo, há muito tempo não vejo as mulheres cantarem uma música com tanto entusiasmo como a Já sei namorar, dos Tribalistas. Sinto nelas a fúria de quem, no meio de um governo Lula-light, percebe que alguém precisa radicalizar no processo. 

Mas mulheres femininas radicalizando é tudo de bom. Elas não cantam cerrando os dentes, não berram e nem batem cabeça como os selvagens do sexo oposto enquanto cantam suas toscas musicas sobre a frágil virilidade masculina. Não lhes é da índole. São simplesmente mulheres. Cantam. Dançam. Morrem de rir. E dão o seu recado com o charme tão peculiar da mulher.

Já sei namorar é aquele hit do ''Já sei beijar de língua'' e principalmente do ''Eu sou de ninguém/ Eu sou de todo mundo/ E todo mundo é meu também''. 

Quando ouvi essa musica pela primeira vez no especial da Globo, jamais imaginei que se tornaria um hit da “vingança da calcinha”. É só observar como as siliconadas, misses e afins do Big Brother Brasil 3 soltam a voz, abrem suas asas, quando a música começa. E isso está por toda parte! A catarse das mulheres se declarando de ninguém, como as feministas de outrora, porém mais femininas do que nunca, é um dos acontecimentos do verão 2003. 

Tudo bem, vou dar meu braço a torcer e fazer justiça com a nova Garota Propaganda da Camisinha. Na versão 2002 do Big Brother, elas lançaram o Baba, baby, que se trata da desforra amorosa de Kelly Key sobre um professor que a desprezara na adolescência. Mas é claro que não se pode comparar a riqueza dessa obra-prima chamada Tribalistas com alguém que atende pela alcunha de Kelly Key. Mudemos de assunto.

As mulheres na MPB, que no século passado foram esculachadas por Lamartine Babo (''só dando uma pedrada nela''), Ary Barroso (''essa mulher há muito tempo me provoca/ Fala que nem pata choca''), Noel Rosa (''o maior castigo que te dou/ é não te bater/ porque gostas de apanhar'') e pelo funk denegridor carioca (potranca/ cadela e derivados) estão indo à forra e deixando essa historia de sexo frágil para trás. Elas não são de ninguém! 

Quem iria gostar quando as mulheres cantam o ''Eu sou de todo mundo'' é Nelson Rodrigues. Que se fosse vivo, de certo não deixaria esse hit passar em branco. O dia da glória feminina tão sonhada chegou.

Não sei como está “Já Sei Namorar” pelo Brasil, mas aqui no rio, especialmente na boca das cariocas, a musica ganha um ar ainda mais predatório: ''Tô te querendo como ninguém''. 

Aos poucos vai se afirmando uma nova tradição da MPB, na contramão das Amélias. Hoje a MPB é feita de mulheres fortes e talentosas. Mulheres com uma nova forma de amor, sem medo de ser o que são e assumem isso em suas tão belas canções. 
 

É a música feminina de verão - com muito humor e um duplo sentido - muito peculiar para 2003. Sem essa de queimar os sutiãs em praça pública (já que sutiãs andam caríssimos e as praças cada vez mais perigosas). 

E eu me orgulho de fazer parte disso tudo. Gostava quando as Frenéticas cantavam ''Eu sei que eu sou bonita e gostosa/ Cuidado, garoto/ Eu sou perigosa''. Depois veio Marina Lima com o seu “Não quero luxo, nem lixo/ Quero gozar no final”. E agora, Tribalistas! 

Chega de machismo, da hipocrisia, da maria escandalosa, da nega do cabelo duro, das potrancas. Chega de feminismo burro. Ser feminina é ser inteligente. Melhor assim. 
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Dani Jales
 

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