O desabafo da WebMaster


Querido Leitor,

                     Todo mundo é meio metido e eu não sou exceção. Gosto de me sentir bacana, para compensar uma parte do complexo de inferioridade que me assola e me faz sentir assim, abaixo da sola. Melhorei bastante ao longo das últimas chibatadas, mas ainda há um longo caminho a seguir neste planeta redondo.

                     No mundo da Web, há várias coisas que podem compor a reputação de um usuário. O ICQ, por exemplo. Não ter ICQ é praticamente um crime inafiançável. É o que a gente chama de um 'must have' ou, como eu acabo de inventar, um TQT, um 'tem que ter'.

                     Se você não tem ICQ, corra e faça o download agora. Provavelmente você terá um UIN acima de cem milhões, o que mostra que você chegou atrasado em relação a uma parte do mundo. É esta parte do mundo, a que veio antes, que diz que quem tem  'números mais baixos' do ICQ, tem mais 'status'. É uma solene bobagem, mas é uma daquelas coisas inconfessáveis que acontecem de fato.

                     O comportamento das pessoas na Web, o modo com que escrevem os textos, os erros de português que cometem, são formas de 'mostrar' a personalidade. Eu, por exemplo devo ter uma vocação natural para atrair gente que gosta de fazer spam.

                     Minha caixa de entrada poderia ser transferida inteira para a lata de lixo, tamanho o número de spam que recebo. Chego a receber 266 emails de spam para cada 3 que são realmente para mim. Deprimente, não?

                     Todos os meus outros endereços estão, praticamente, perdidos.

                     Porém, como eu ainda tenho esperança nos seres  humanos, de vez em quando, ao invés de sair deletando tudo como uma louca, abro todas as porcarias para ver se há algo que se aproveite. E às vezes, há. Alguns emails vendem alguma coisa que presta, trazem links que valem a pena ser visitados, e contém mensagens que caem bem para momentos de ócio, cada vez mais raros.

                     Hoje foi um desses dias. Por um acaso do destino, passei minha primeira tarde em casa, depois de uma maratona no meu novo emprego. Desliguei a TV depois de ver esta importante mídia eletrônica reduzida a um leitor de mídia impressa. Leão Lobo 'leu' a revista 'Chiques& Famosos' inteirinha no ar, num provável acordo operacional com a editora Símbolo, vai saber. Enquanto isso, na Rede Tv, Sônia Abrão, mostrava incontáveis jornais, enquanto Claudete falava de mais um daqueles casos que já nem sei mais, de pagodeiros que engravidam, atropelam, ex-mulheres que pedem pensão. Abandonei a questão. Desliguei a TV e vim pra Web.

                      Aproveito para aprimorar minha Home Page, que vem sempre a calhar e me ajuda a suprir minha carencia por cultura e sexo... E eu já nem sei o que é pior. Eu perdi temporariamente as esperanças, e já não acho nada tão importante como antes.

                     Pra encerrar, preciso desabafar umas últimas coisas: como a Bárbara Gancia, eu também quero fuzilar ao amanhecer as pessoas que ao invés de dizerem sim sempre repetem 'com certeza', e como eu  mesma, quero estrangular com o cadarço do tênis as pessoas que entram em contato pelo ICQ, com a primeira mensagem dizendo 'oi'.

                     A regra básica deveria ser assim: só pergunta quem tiver algo relevante a perguntar, só fala quem tiver algo relevante a dizer, só entra em contato quem tiver um motivo. E quem estiver apenas querendo jogar conversa fora, email fora, tempo fora, que se relacione direto com o baldinho de lixo. De onde muita coisa não deveria nunca ter saído...

                      Também não quero ser preconceituosa com as pessoas que não tiveram oportunidade de estudar, de forma alguma. Ao contrário,  luto para ter um país justo onde todo cidadão seja tratado com o respeito oficial, determinado pelos direitos humanos. Ter direito à vida, à saúde, à educação.

                        Mas aceitar o fato de que o Marcelinho Carioca quer mesmo ser escritor não é fácil para quem vive do texto. Seria como o João Ubaldo Ribeiro resolver ser centro avante do Corinthians.

                         Claro, o Marcelinho pode dedicar-se à literatura e aprender, mas a Carla Perez querer virar cantora é um abuso.Ok, ela faz parte de um fenômeno de marketing popular, chamando 'Tchan', pelo qual somos todos um  pouco culpados. Fez toda funilaria que seu dinheiro novo permitiu, o nariz de Michael Jackson, melões do vale do silício e o  interlace no l'oreal loiro. A Carla Perez cantando está mais para número de circo, na categoria flatulência musical.

                         Mas como desgraça não vem sozinha, a Carola Scarpa querendo ser candidata a Prefeita de São Paulo. Pode? Isso serve pra gente avaliar a que ponto chegamos com nossa neglicência no que diz respeito a nosso voto, nossa audiência, nosso consumo. A gente assiste qualquer M..., come qualquer M..., vota em qualquer M... e aí os M & Ms, querem ficar no poder!

                          Pelo menos a prefeita eleita, Marta Suplichic veio para provar que depois da lambança do Maluf, até uma loira pode governar São Paulo... E o São Governador Garotinho, heim? Sem comentários. Do jeito que as coisas andam, ele será nosso proximo presidente... Aleluia...

                          Mas pra fechar com as barbaries do nosso país, o Juíz Nicolau, que passou um tempo escondido no mar de lama, foi delatado por coliformes fecais que não suportaram o mau cheiro do magistrado ladrão.  E não adianta reclamar, viu? A gente tem que tomar vergonha na cara mesmo. Falo isso, porque vivo no mesmo  planeta e passo na mesma estrada onde teve o acidente e vejo absolutamente todo mundo, dando aquela paradinha pra olhar o acidente. Eu sei, todo mundo vai dizer que isso é humano. Mas o ser humano evolui! Na era das cavernas todas as barbaridades também eram consideradas humanas. Assim como na Idade Média. Era um ser humano de  época, menos evoluído.

                           Agora, não. Agora tem celular, tem  Internet, ao alcance da mão. Antes tinha foguete, mas era tudo longe, nos Estados Unidos. E se a tecnologia evoluiu tanto a ponto de banalizar-se, como qualquer caixa eletrônico na esquina, por que a gente não evolui também?

                           Eu sei, a perspectiva de ter Carla Perez cantando é assustadora. Mas ainda não chegamos ao ponto dela querer ser escritora. Ainda há uma chance. É por isso que acredito tanto nas minorias.

                           Amém!

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