Em Busca do Paraíso (4.02.02)

Há algo de muito errado acontecendo comigo, e disso eu não tenho a menor duvida. Será que essa minha vida moderna me deixou meio conservadora demais? Agora só me restam duas hipóteses: 

Hipótese numero 1: Evolui tanto ao ponto de não suportar determinadas miudezas do mundo tido como “normal”.

Hipótese numero 2: Parei no tempo e regredi tão mediocremente que não consigo perceber que, moderno mesmo é associar-se à igreja Sarah Nossa Terra. 

Na duvida, prefiro não opinar tão diretamente sobre isso, mas o fato é que tracei determinados valores para minha vida que as vezes me fazem esquecer do mundo lá fora. E isso está comprometendo seriamente a minha heterossexualidade. (se é que ela ainda existe).

Sempre achei o mundo gay muito mais divertido, mas nunca imaginei que “fazer a social” novamente em um ambiente hetero seria tão difícil. (ou insuportável). E isso me faz ver que o Barrim tinha razão: Eu não podia ter me afastado tão radicalmente assim dos “normais” e ter sido um pouco mais cuidadosa com estereótipos. Não pareço – nem de longe – com a Cássia Eller, mas agora entendo a preocupação do meu amigo.

Acontece que tenho uma amigona do peito e agora estamos meio afastadas porque ela foi recrutada por um grupo malicioso e aliciador, chamado Igreja. E nossos papos sobre “Você viu a Monique Evans ontem?” se transformaram assustadoramente para “Jesus te ama, renda-se! Existe um buraco dentro de você do tamanho do amor de Jesus! Eu tenho dentro de mim algo que você não tem!” E isso não deixa de ser assustador.

Mas Deus é testemunha de que eu tenho tentado com todas as minhas forças manter o meu convívio hetero, e isso não tem sido uma tarefa nada fácil. Ando aproveitando a presença de minha mãe no Rio de Janeiro para retomar essa minha carreira de sucesso, mas só tenho acumulado fracassos. 

Ontem fui com minha mãe em busca do meu pequeno lote no céu na casa de alguns parentes, e esse talvez tenha sido um dos dias mais longos da minha vida.

Na casa haviam cerca de 12 pessoas. Sendo que 11 são razoavelmente heteros e 1 é uma garotinha de 8 anos que ainda não sabe direito nem o próprio sobrenome. E eu, isolada, sozinha... Praticamente um E.T.

Única pessoa que conseguia ficar mais de 5 segundos em silencio. Única com piercing. Única fumante do Sampoerna. Única lésbica. Única pessoa que se recusava a falar exclusivamente de cor de azulejo de cozinha, da necessidade básica de um pegador de sorvete de metal, do número de panelas de arroz queimadas, da quantidade de Lysol que se usa em um dia inteiro de faxina. Única a se recusar a falar no piscinão de Ramos. Não, eu não posso ser um E.T.

Me isolei em um canto e resolvi dormir. Mas antes de cair em sono profundo fiquei a observar o absurdo que são encontros em família. E tudo indica que estou cada vez mais afastada do meu pequeno lote no paraíso.