| A idade mental da Veja -
José Sérgio Rocha
(texto publicado em: www.observatoriodaimprensa.com.br) Abra a Veja despreocupado. Esqueça que você tem opiniões diferentes, esqueça que a cobertura da marcha em Brasília teve como principal personagem o celular do Lula, os impropérios contra Brizola e a corrente de opinião que representa. Esqueça as exaltações ao caçador de marajás e a entrevista do irmão caçula que o detonou. Faça como FHC e esqueça tudo o que foi escrito em Veja. Não pare nem para ler o textinho sobre dom Hélder Câmara, no qual somos "informados" de que o estado de Pernambuco é habitado por gente tão atrasada que ainda pensa um mundo dividido entre esquerda e direita. Apenas abra a revista e vá diretamente à matéria principal da edição de 8 de setembro, "A idade verdadeira". Veja sabe que todos gostamos de fazer testes para saber se estamos mais magros, mais gordos, mais felizes, mais inteligentes etc. Com certeza, o livro do médico americano Michael Roizen, no qual se baseou a matéria, venderá como banana da terra em nossa república idem, depois da força que Veja lhe deu. Até aí, tudo bem. Se fosse nos anos 40 ou 50, veríamos em O Cruzeiro mais uma fotomontagem de discos voadores ou o último plano comunista para sufocar as liberdades no Brasil. Mas estamos nos estertores dos 90 e a agenda de preocupações do fim do milênio reserva lugar de honra à busca da eterna juventude. Continue lendo e se divertindo. Êpa! O que a Sandy e o Júnior fazem no meio disso aí? Que importância tem, para os que buscam o rejuvenescimento, se a idade física ou mental dos meninos cantores de Goiás é pouco maior ou menor do que as que constam das respectivas certidões de batismo? Eu estava assim, como você,
lendo a revista sem preconceito, até bater o olho no mais marrom
de seus parágrafos, que diz textualmente: "Se assim fosse, o governador
Itamar Franco poderia rejuvenescer a tal ponto que sua idade física
finalmente se equipararia à sua idade mental."
Veja já entrou em campanha eleitoral. Será que deixou de fazer em algum momento? Imagine se Veja existisse há mais tempo? Que revista brasileira daria mais destaque ao Plano Cohen, à Carta Brandi, aos conluios subterrâneos para instalar os comunistas no poder e a outros documentos enganosos, medíocres e falsificados que ajudaram a mergulhar o país no Estado Novo de 1937 e na ditadura militar de 1964? Veja devia se submeter ao
teste do doutor Roizen. Pena que alguns leitores chatos se sintam ludibriados
com o recheio excessivo do pensamento político da autora, de seu
editor e do patrão de ambos num assunto que devia ter leveza e boas
intenções, em vez da gordura rançosa e saturada do
ressentimento. Passaram do ponto mais uma vez. Deve ser por isso que Veja,
apesar dos 32 anos de idade física, exibe um corpinho de 72.
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